Última carta

“Pelo menos eu tentei chorar
Mas acontece que a vida não me deixa desabar
Não vou beijar concreto
Tá tudo certo
Tá tudo em paz”

Eu conheci alguém.

E meu amor, ele é ótimo. Ele cita frases da minha série favorita despretensiosamente com um copo de suco de laranja na mão, por que não combina álcool e direção. E ele demonstra surpresa ao me ver surpresa por saber disso. Pra ele o certo é natural. Puta que pariu, amor. Ele é certinho pra caralho.  E eu me sinto mal por falar palavrão, e pensar nele com todos os pensamentos sujos, por que ele me dá tesão, e é o primeiro cara que consegue esse feito desde que terminamos. Eu bebo um pouco e (você sabe como eu sou fraca com cerveja) falo sem parar numa tentativa ridícula de impressioná-lo, e ele só me olha. É mais ou menos 1h da manhã, e eu escuto um “olha, quero muito fazer uma coisa, mas não sei por onde começar…” e então me beija. Ele se tornou o primeiro depois de tantos acontecimentos, e foi bom. Foi muito bom amor, porque ele era tranquilo no beijo, na conversa e principalmente na alma.

Foram tantas coisas bonitas naquela noite, amor. O sorriso dele. Nós dois conversando sobre capitalismo, consumismo, marketing e cerveja. Nosso papo sobre ex’s. Minha timidez deixando ele mais solto. A visão bonita que aquele teto mostrava, enquanto estávamos deitados. E eu, que planejei ir embora as 2h da manhã, mas que cheguei em casa as 11h (e nunca me senti tão bem ao levar uma bronca) passei o domingo todo sem pensar em você.

Eu pensei agora amor, ao pensar em escrever pra ele pensei primeiramente em escrever pra você, contando sobre como foi estar com ele. Meu primeiro desde o fim. Foi engraçado, que certa parte da noite ele me perguntou o por quê de não ter sido nenhum outro, e eu não consegui responder com clareza…. Falei sobre respeito, lei do décimo e o clichê ‘ficar sozinha’, mas a resposta certa, é que em todos os outros eu via você. Seus olhos, seu sorriso, seu bom humor. Eu descobri então, que tudo aquilo das últimas semanas passou. Eu consegui finalmente estar com alguém sem culpa e com o coração tranquilo.  E então, eu te perdoei por sentir isso antes de mim.

Demorei pra escrever tudo isso. Demorei mesmo. De certa forma, ao longo do texto, eu pude ver que ele não é sobre você, muito menos sobre o rapaz. Ele é sobre mim. Sobre a luta que eu tive pra vencer esses meses que passamos juntos, e mais ainda essas semanas que passamos separados. Ele é sobre as sextas-feiras que eu chorava de madrugada na casa de um amigo, e escrevia textos pelo celular enquanto ele ia buscar algo pra comermos. É sobre todos os copos de vodka que eu tomava pra dormir nas primeiras semanas. É sobre acordar me sentindo um lixo por ter sonhado com você, pela milésima vez. É sobre vencer todos os medos, os instintos, as vontades e vencer as apostas que fizeram em cima do meu tempo de superação. Disseram 3 meses, 2 meses e no máximo 1 ano, mas eu demorei 4 sextas-feiras, 1 melhor amigo e muito dinheiro gasto em cerveja e cigarro. E então, ao me deitar com o tal rapaz milagroso, pude me sentir pela primeira vez em 2014, inteiramente em paz.

Her

do filme “Her”

E tal como o filme visto numa madrugada conturbada, enquanto você dormia ao meu lado, essa é a última carta que eu escrevo pra você. Pensei em mil maneiras de te dizer o óbvio, ou te dizer qualquer bobagem pois sei que você não vai ler, mas escolhi te dizer que eu te perdoo.

E espero que você seja feliz.

(originalmente escrito em 16-06-2014)

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